Com Ela — Sobre a Gravidade e o Chão
Sempre escrevi para estancar sangramentos. Para dar contorno ao que, dentro do peito, era apenas névoa e pressa. A ansiedade sempre foi a minha métrica... O compasso acelerado que me empurrava para as teclas no meio da noite, procurando uma ordem que o mundo insistia em me negar. Hoje o silêncio é outro. Não há urgência na garganta. Há apenas o peso bom de uma gravidade que finalmente me devolveu ao chão. Pela primeira vez, não escrevo para sobreviver à tempestade. Escrevo para registrar o tempo firme. Com ela, os descompassos parecem ter encontrado uma linha de base. Há quem olhe de fora e enxergue apenas as nossas geometrias tortas... O meu "vício" em querer estar perto, o instinto dela de recuar um passo para respirar. Duas naturezas que a teoria diria inconciliáveis. Mas a teoria não habita o espaço entre os nossos silêncios. O que temos não é a ausência de medo. É a escolha deliberada, diária e silenciosa, de permanecer. É a transição lenta, quase imperceptível, de ...