Com Ela — Sobre constância
Existe uma versão romantizada da constância.
Aquela onde tudo funciona perfeitamente, onde ninguém falha, ninguém se assusta, ninguém se fecha, ninguém transborda.
Como se amar alguém fosse uma fileira impecável de xícaras alinhadas sobre uma mesa limpa.
Mas a verdade é que a constância nunca teve cara de perfeição.
Ela se parece mais com café derramado.
Com pequenas rachaduras emocionais.
Com dias silenciosos.
Com inseguranças que aparecem do nada às três da manhã.
Com o medo absurdo de estragar algo bonito justamente porque ele é bonito demais.
Constância não é nunca vacilar.
É continuar mesmo vacilando às vezes.
E talvez seja isso que mais me encanta com ela.
Porque existem relações que sobrevivem apenas enquanto tudo é leve.
Mas existem outras que criam raízes justamente nos dias confusos. Nos dias em que um dos dois não sabe muito bem explicar o que sente. Nos dias em que o mundo pesa mais do que deveria.
Com ela, eu comecei a entender que amar não é exigir estabilidade emocional perfeita de alguém.
É oferecer presença mesmo quando o outro não consegue organizar os próprios sentimentos direito.
E isso muda todo o panorama.
Porque amar alguém não é encontrar uma pessoa eternamente pronta.
É encontrar alguém que vale a permanência.
Alguém que faz você querer ficar mesmo quando a mesa está bagunçada.
Talvez a constância verdadeira seja isso:
não transformar toda turbulência numa despedida.
É olhar para o caos pequeno inevitável das relações humanas e ainda assim pensar:
“Eu continuo aqui.”
E, Deus… Como é raro encontrar alguém que faça o “ficar” parecer tão bonito.
— Com Ela.