Hoje é Dia das Mães...

... E talvez muita gente espere que esse seja um texto bonito sobre amor incondicional, abraço apertado, almoço em família e fotografias felizes postadas nas redes sociais. Mas a verdade é que datas comemorativas também funcionam como holofotes. Elas iluminam aquilo que muita gente passa o resto do ano tentando esconder.

Engraçado como algumas feridas envelhecem com a gente sem nunca realmente amadurecer. Elas só aprendem a falar mais baixo. Se acomodam em lugares estratégicos da alma e aparecem de vez em quando, normalmente em datas específicas, horários específicos, músicas específicas ou mensagens específicas.

Hoje eu recebi uma dessas mensagens.

E curiosamente ela não tinha nada demais.

Era sobre um chuveiro.

Ou talvez nunca tenha sido.

Existe uma sensação muito estranha em crescer tentando alcançar uma linha de chegada que muda de lugar toda vez que você se aproxima dela. Algumas pessoas crescem ouvindo incentivo. Outras crescem aprendendo a performar afeto. Aprendem que existir não basta. Que amor precisa ser merecido. Que presença precisa ser útil.

Acho que boa parte da minha vida adulta foi construída tentando compensar silenciosamente uma insuficiência que nem sei exatamente de onde veio. Ou talvez eu saiba.

Talvez a infância seja só um longo ensaio das relações que teremos depois.

Hoje, depois do culto, eu resolvi ir. Não porque tudo estivesse bem. Não porque exista uma grande reconciliação acontecendo. Mas porque às vezes a gente ainda tenta. Mesmo cansado. Mesmo depois de anos. Existe sempre uma parte infantil dentro da gente acreditando que talvez agora seja diferente.

Peguei ônibus.

No meio do caminho veio a mensagem dizendo para eu não ir mais. Que ela sairia de casa. E foi estranho perceber como algumas frases conseguem transportar a gente imediatamente para versões muito antigas de nós mesmos.

De repente eu já não estava mais dentro de um ônibus.

Eu tinha oito anos de novo tentando entender por que nunca parecia suficiente.

E o mais perigoso nesse tipo de relação é que ela vai contaminando outras partes da vida sem que a gente perceba. Relacionamentos. Autoestima. A forma como a gente trabalha. A maneira como recebe críticas. A dificuldade em acreditar em elogios. A culpa ao descansar. A sensação constante de dívida emocional.

Tem gente que cresce sem nunca aprender a ser amada em paz.

Só em estado de teste.

Mas no meio desse domingo estranho aconteceu uma outra coisa também.

Enquanto eu voltava sem saber muito bem o que fazer comigo mesmo, algumas pessoas me acolheram sem esforço nenhum. Sem cobrança. Sem teatro emocional. Sem a necessidade de me fazer sentir pequeno antes.

E talvez isso tenha me desmontado ainda mais.

Porque às vezes o amor não aparece onde biologicamente deveria aparecer. Às vezes ele aparece na mesa de um casal de amigos que já tinha aberto a porta da própria casa pra você quando a vida desabou antes. Gente que oferece comida sem transformar aquilo em dívida. Gente cuja presença não cansa.

Tem gente que salva a nossa vida sem nunca entender totalmente o tamanho disso.

Talvez maturidade seja perceber que família e acolhimento nem sempre são exatamente a mesma coisa.

E talvez paz seja parar de insistir em portas que só se abrem para nos machucar de novo.

Hoje é Dia das Mães.

E eu sei que para muita gente esse é um dia de celebração sincera. Mas para outras pessoas é um dia de silêncio, culpa, confusão e feridas antigas reaprendendo a respirar.

Nem todo mundo teve colo.

Mas felizmente algumas pessoas encontram abrigo no caminho.

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