Casta...
Hoje eu me senti como alguém que nasceu do lado errado de uma fronteira invisível.
Não é uma fronteira geográfica.
É uma dessas linhas silenciosas que a sociedade desenha sem usar tinta — aquelas que dizem, sem dizer, quem pode e quem não pode.
Eu sempre ouvi falar de sistemas de castas em lugares distantes do mundo. Pareciam histórias antigas, quase folclóricas. Pessoas que nasciam marcadas por um destino social: até aqui você pode ir, daqui pra frente não.
Hoje eu senti um pouco disso.
Não porque alguém tenha sido cruel de propósito. Às vezes ninguém levanta a voz. Às vezes não existe acusação direta. Só existem os argumentos práticos, racionais, aparentemente sensatos:
as viagens que talvez eu não possa fazer;
o padrão de vida que talvez eu não consiga oferecer;
as expectativas que talvez eu não consiga cumprir.
Tudo dito com calma.
Tudo dito com lógica.
Mas mesmo quando as palavras são calmas, elas ainda pesam.
E o que sobra no silêncio depois da conversa é uma pergunta que ninguém faz em voz alta:
Será que eu não sou suficiente?
Eu sempre achei que relacionamentos eram encontros entre pessoas.
Histórias que se cruzam.
Afetos que encontram espaço para existir.
Mas às vezes parece que também são encontros entre realidades financeiras, currículos de estabilidade, projeções de futuro.
E aí o amor precisa apresentar comprovante de renda, residência, ensino superior ou até mesmo matrícula do Estado.
Talvez eu esteja sendo melancólico demais essa madrugada. Talvez amanhã tudo pareça diferente.
Mas agora, sentado nesse silêncio estranho que fica depois de uma conversa difícil, eu sinto uma espécie de impotência.
Não é a impotência de quem não quer.
É a de quem quer muito, mas percebe que certas portas não são abertas só com vontade.
Mesmo assim, existe uma coisa que ninguém pode tirar de mim:
Eu sei quem eu sou.
Não sou um saldo bancário.
Não sou um pacote de viagens.
Não sou uma projeção de segurança.
Sou um cara tentando viver, amar, construir alguma coisa verdadeira no meio do caos cotidiano.
E talvez isso não seja suficiente para algumas histórias.
Mas ainda é suficiente para continuar sendo eu.