Para os que torcem contra...
Existe algo profundamente doloroso em perceber que algumas pessoas olham para o amor como se ele precisasse primeiro passar por uma auditoria social antes de merecer existir.
Como se sentir fosse permitido apenas quando todos ao redor concordassem.
Como se o coração tivesse que preencher requisitos mínimos.
Às vezes tenho a sensação estranha de que não sou visto como uma pessoa, mas como um possível erro. Um risco. Um problema futuro. Algo que precisa ser evitado antes que “cause danos”.
Um câncer, talvez.
E isso é uma sensação muito difícil de explicar.
Porque eu não cheguei na vida de ninguém querendo destruir nada. Muito pelo contrário. Nunca entrei numa relação pensando em consumo, posse, jogo ou passatempo. Sempre pensei em presença. Em construção. Em paz. Em parceria.
Mas existe um tipo de rejeição silenciosa que não vem de algo que você fez. Vem daquilo que você representa aos olhos de certas pessoas.
A idade.
O passado.
O fato de já ter sido casado.
Ter um filho.
Não possuir determinado status.
Não performar o arquétipo socialmente confortável do “homem ideal”.
E então, pouco a pouco, você percebe que algumas pessoas torcem não contra o relacionamento em si, mas contra a possibilidade dele dar certo.
Como se o fracasso fosse o desfecho “mais seguro”.
Como se o amor precisasse obedecer uma espécie de lógica patrimonial antes de merecer apoio.
O mais curioso é que ninguém dirá isso explicitamente.
Virá sempre vestido de cuidado.
“Vai devagar.”
“Tome cuidado.”
“Pense bem.”
“Você merece mais.”
“Não corra.”
E o mais estranho nisso tudo é perceber como certos discursos mudam dependendo de quem ocupa o lugar da história.
Porque eu tenho minhas dúvidas se toda essa cautela existiria da mesma forma caso eu representasse um status social mais confortável aos olhos das pessoas.
Talvez, se fosse um homem extremamente rico, poderoso ou socialmente admirado, o discurso fosse outro.
“O amor não tem idade.”
“O amor acontece assim mesmo.”
“Quando duas pessoas se conectam, o resto se resolve.”
A intensidade viraria romantização.
A rapidez viraria certeza.
E aquilo que hoje é tratado como risco talvez fosse chamado de destino.
Mas existe uma linha muito tênue entre proteger alguém e impedir que ela viva algo real por medo do que aquilo não aparenta ser.
Talvez uma das maiores violências emocionais da vida adulta seja essa:
Quando duas pessoas se encontram sinceramente, mas o entorno começa a agir como se aquele encontro fosse um acidente a ser corrigido.
E ainda assim… existe algo bonito nisso tudo.
Porque no fim, amar alguém continua sendo um ato profundamente eudaimônico.
Não no sentido infantil de “o amor vence tudo”.
Mas no sentido de escolher aquilo que faz a alma se sentir viva, inteira e verdadeira, mesmo quando o mundo ao redor prefere estatísticas, previsões e aprovações.
Talvez felicidade nunca tenha sido sobre parecer a escolha mais lógica.
Talvez seja apenas sobre encontrar alguém diante de quem o silêncio finalmente deixa de ser solidão.
Parabéns aos que torcem contra.