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Quando dois corpos estão juntos, o mundo parece fazer uma pausa. Não há espaço para as barreiras de fora, para as pressões cotidianas ou para os nós que a rotina dá na mente. Ali, o silêncio muda de figura: vira cúmplice, ganha contornos na pele, vira desejo pura e simplesmente. É a intensidade que faz lembrar o motivo de se insistir em alguém.

​O estranho é perceber como esse mesmo silêncio que une na presença, sufoca na ausência. Assim que a separação física acontece e as barreiras invisíveis do mundo real se erguem de novo, o que sobra é um deserto de palavras. É aí que a quietude deixa de ser cumplicidade e passa a ser distância.

​Cria-se um paradoxo quase cruel entre o escuro e a luz do dia. No espaço controlado de um carro à noite, no escurinho do cinema ou entre quatro paredes, a conexão é tão nítida que assume contornos de um romance de verdade.

 Mas basta a luz do dia aparecer, ou o cenário mudar para uma mesa de bar cercada de amigos, para que o roteiro mude. Sob os olhos dos outros, o afeto se torna contido, quase invisível. O abraço diminui, a proximidade se dissipa e a sensação de intimidade dá lugar a uma etiqueta fria. É o peso de estar no mesmo espaço, mas se sentir apenas mais um convidado na festa de alguém.

​Talvez o que falte perceber é que as pessoas são movidas por carências de tipos diferentes. Uma carência pode ser saciada justamente ali, naquele instante de escape, funcionando como um refúgio temporário do mundo antes de um retorno para a própria concha. Já outra carência pede o depois. Precisa da palavra, da costura no cotidiano, da certeza de que a conexão continua viva mesmo quando não há o toque.

​Fica uma sensação agridoce no peito. Uma dependência de momentos isolados de alta voltagem que, por mais perfeitos que sejam, parecem não ter força para manter a luz acesa no dia a dia.

​A cumplicidade que se tem no escuro raramente sobrevive à luz do dia e ao peso de mensagens avulsas. E, no fim, resta apenas tentar decifrar como é possível se encaixar tão bem no calor do momento e se perder tanto no frio do que fica subentendido.

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