Descompassos silenciosos

Tem dias em que a ansiedade não chega fazendo barulho.

Ela vem baixa, quase educada... E justamente por isso convence.

Diz que sou eu quem sente mais.

Que sou eu quem sente falta.

Que, se eu me afastasse um pouco, talvez nada mudasse do outro lado.

E eu começo a procurar sinais.

No tempo de resposta, no tom, nos intervalos.

O que antes era neutro vira dúvida.

O que era silêncio vira interpretação.

Talvez eu esteja exagerando.

Talvez seja só a minha cabeça tentando organizar o que não entende.

Mas talvez não seja só isso.

Existe uma sensação difícil de ignorar.

Como se aquilo que eu ofereço não encontrasse a mesma medida de volta.

Não necessariamente menor.

Mas diferente o suficiente pra causar ruído.

E aí nasce a pergunta que não tem resposta exata:

Isso é real ou é projeção?

Provavelmente os dois.

Porque expectativa é uma construção silenciosa.

Ela não é combinada. É criada.

Vai crescendo sem aviso, até começar a cobrar algo que o outro nunca prometeu.

E, ainda assim, eu espero.

Do outro lado, talvez também exista espera.

Talvez exista alguma falta que eu não percebo.

Algo que eu não entrego... Não por descaso, não senhor, mas por não saber.

Pessoas conversam.

Mas nem sempre o suficiente.

O óbvio, esse que parece dispensar explicação,

é justamente o que mais precisa ser dito e quase nunca é.

No lugar disso, às vezes entra o silêncio estratégico:

“Melhor não falar agora”

“Vou esperar”

“Se fosse importante, teria dito”

E assim, sem intenção clara, vai se formando um espaço.

Um intervalo.

Um hiato.

E o que assusta não é o silêncio em si, mas a possibilidade dele virar padrão.

De crescer a ponto de parecer natural.

De afastar sem que ninguém perceba exatamente quando começou.

Talvez não exista medida exata pra sentir.

Nem equilíbrio perfeito entre duas pessoas.

Mas existe escolha.

E, entre supor e dizer,

eu ainda acho que dizer é o único movimento possível contra esse tipo de distância.

Porque, no fim, expectativa continua sendo só isso: Minha.

Mas o silêncio…

Esse nunca é neutro.

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