Felca... Texto: A Toca do Lobo 🐺

" O sujeito passa anos trancado no quarto, fazendo piada com a própria esquisitice. A graça estava ali: alguém que não se encaixava rindo de si mesmo antes que o mundo resolvesse rir primeiro. Era desconfortável, às vezes até meio triste, mas justamente por isso é que funcionava.


Corta.


O influencer agora aparece polido, articulado, rico, com aquele ar de quem descobriu a fórmula fácil para se tornar tudo aquilo que criticou, afinal percebeu que o lado de lá é mais agradável, mais prazeroso. E então um upgrade completo: postura, discurso, intenção. O pacote inteiro. A figura que antes servia de piada agora distribui orientação com segurança de manual. É a nova autoridade em determinado assunto, porém sem diploma.


Só que a internet não é um caderno novo. É mais um depósito — daqueles empoeirados, cheios de caixas que ninguém organiza, mas também ninguém joga fora.


E as caixas estão lá.


Vídeos que não pedem interpretação criativa: pedem estômago. Em um deles, completamente alterado, o influenciador, numa live, despeja uma sequência de ofensas contra a namorada da época — não uma frase atravessada, mas uma insistência quase metódica. Algo que, pela nova proposta de Lei da Misoginia, ele estaria possivelmente preso. Em outro, resolve compartilhar dicas de vídeos sexuais que fariam qualquer conversa normal morrer na hora, sem nem direito a despedida. E tem também o momento em que transforma o mapa do Brasil numa espécie de rascunho descartável, sugerindo que o sul do país poderia simplesmente deixar de existir, "desaparecer com o ataque de uma bomba atômica", e tudo isso dito com a naturalidade de quem comenta o clima.


Nada disso desapareceu. Mas pelo visto também não atrapalhou o sucesso.


Porque existe um talento muito brasileiro que quase sempre é reconhecido: a capacidade de fabricar ídolos de barro em escala industrial. E não qualquer barro — muitas vezes barro 100% orgânico, já usado, já pisado, já rachado. Ainda assim, moldado de novo, com outra forma, outra narrativa, outra embalagem.


E funciona. Sempre funciona, pois aqui o critério não é consistência, é presença. Quem ocupa espaço, quem fala com firmeza, quem entrega a indignação certa no momento certo, ganha o selo informal de autoridade. O passado vira detalhe técnico, quase um erro de digitação na biografia.


Existe até uma elegância nisso tudo, se olhar com o distanciamento certo. Uma espécie de teatro contínuo onde os papéis mudam mais rápido do que a plateia consegue acompanhar. Hoje o sujeito é personagem de redenção, amanhã especialista em comportamento, depois de amanhã, quem sabe, se torna uma referência ética.


O roteiro não exige coerência. Exige ritmo.


E o público acompanha. Aplaude, compartilha, comenta, defende. Não porque esqueceu completamente, mas porque lembrar ou questionar dá muito mais trabalho do que seguir o fluxo.


No fim, sobra essa galeria curiosa de figuras reinventadas, todas muito seguras de si, todas muito prontas para ensinar, como se a própria trajetória meteórica tivesse sido um ensaio bem-sucedido.


No Chipanzil, os ídolos de barro, expostos ao sol forte e com rachaduras visíveis, ainda assim são tratados como se fossem mármore."

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