A Física do Recuo
Já reparou que, em certas relações, existe uma física estranha no espaço compartilhado? Uma contabilidade silenciosa, quase invisível, onde o afeto parece obedecer a leis de pressão e temperatura que ninguém consegue controlar.
A gente acha que o chão finalmente está firme. Acredita que as palavras novas, aquelas que dão nome e contorno ao que se sente, desenharam um limite claro, um teto sob o qual é possível descansar o sobressalto. Mas o descanso, para certas naturezas, tem o peso de uma ameaça.
Existe um movimento exato que acontece quando a segurança se acomoda. Quando o peito de um se aquieta e o outro percebe que não há mais o risco da queda, algo na engrenagem recua. É como se a certeza alheia fosse um espelho que assusta. Como se o fato de um estar inteiro significasse, de alguma forma, que o outro entregou território demais.
E então começam as frações...
O afeto que ontem era correnteza volta a ser conta-gotas. As respostas ganham pausas calculadas; os gestos, uma distância de segurança. Recolhem-se as redes e deixa-se o outro na margem, administrando o que sobra. São as migalhas distribuídas em doses exatas, para que o estoque de independência de quem recua nunca zere.
É um ciclo que se repete com a precisão de um relógio quebrado. A entrega que gera o susto, o susto que cava a distância, a distância que o outro precisa engolir a seco para não ativar um alarme ainda maior...
Dizem que é instinto de sobrevivência. A velha armadura que se veste sempre que o mundo ameaça ficar perto demais. Mas a contagem dessas sobras cansa.
Escolher-se todo dia é um verbo bonito. Mas há dias em que a escolha do outro parece vir com uma cláusula de exclusão, uma fresta por onde se possa escapar se a intimidade apertar o passo. E a gente se pega ali, equilibrando-se no desnível desse terreno, aprendendo a não morrer de sede quando a fonte decide fechar para manutenção.