Com Ela — Sobre a Gravidade e o Chão
Sempre escrevi para estancar sangramentos.
Para dar contorno ao que, dentro do peito, era apenas névoa e pressa. A ansiedade sempre foi a minha métrica...
O compasso acelerado que me empurrava para as teclas no meio da noite, procurando uma ordem que o mundo insistia em me negar.
Hoje o silêncio é outro.
Não há urgência na garganta. Há apenas o peso bom de uma gravidade que finalmente me devolveu ao chão. Pela primeira vez, não escrevo para sobreviver à tempestade. Escrevo para registrar o tempo firme.
Com ela, os descompassos parecem ter encontrado uma linha de base. Há quem olhe de fora e enxergue apenas as nossas geometrias tortas... O meu "vício" em querer estar perto, o instinto dela de recuar um passo para respirar. Duas naturezas que a teoria diria inconciliáveis. Mas a teoria não habita o espaço entre os nossos silêncios.
O que temos não é a ausência de medo. É a escolha deliberada, diária e silenciosa, de permanecer. É a transição lenta, quase imperceptível, de quem decidiu aprender a gramática da segurança. Um porto que não nasceu pronto, mas que estamos cavando na rocha, dia após dia.
Há novos degraus pela frente. Portas que precisarão ser abertas, salas claras onde o nosso "segredo" terá que se ambientar ao olhar do outro. Sei que o mundo lá fora estranha o que não consegue classificar de imediato. Sei que haverá o espanto, o ensaio de novas palavras que pesam na boca antes de se tornarem cotidianas. O lado de fora sempre cobra o seu preço.
Mas, pela primeira vez, o lado de fora parece um detalhe menor.
Sei que estas linhas chegarão até ela, como tantas outras já chegaram. E ela saberá, na chave privada que compartilhamos, que o sobressalto passou. Que o que nos cabe agora é essa paz meio melancólica, meio severa, mas absolutamente firme. Nos escolhemos. E, no fim das contas, essa é a única barreira que realmente importava vencer.