AMAR SEM SE PERDER...
Não foi de repente.
Ninguém acorda um dia e pensa: “Hoje vou me abandonar um pouco para que alguém fique.”
Isso acontece devagar.
Começa bonito. Começa leve. Começa com aquela sensação boa de ser visto, de ser desejado, de ter alguém dizendo que gosta da sua companhia. E aí você se entrega. Não por carência. Mas porque acredita.
Eu sempre acreditei no amor dito em voz alta. No carinho demonstrado. No “eu amo você” sem cálculo.
Mas, em algum momento, eu comecei a calcular.
Calcular o tempo de resposta.
Calcular o quanto eu podia demonstrar.
Calcular se eu estava sentindo mais do que deveria.
E ninguém me pediu isso explicitamente.
O medo pediu.
Porque quando a gente gosta de verdade, o risco aparece junto. E o risco maior nunca é o outro ir embora. É a gente perceber que estava mais investido do que gostaria.
Eu tenho essa coisa de perceber mudanças. Pequenas variações de energia. Pequenos silêncios. Pequenas distâncias. E durante muito tempo eu chamei isso de sensibilidade.
Mas talvez, em alguns momentos, fosse só medo tentando se antecipar.
Medo de ser demais. Medo de assustar. Medo de precisar mais do que o outro está disposto a oferecer.
E aí começa o movimento invisível: você vai se editando.
Fala um pouco menos. Espera um pouco mais. Segura um pouco o carinho. Diminui a intensidade para parecer equilibrado.
E tudo isso parece maturidade.
Mas não é.
Maturidade não é se reduzir. Maturidade é sustentar quem você é, mesmo quando isso envolve risco.
Eu não quero amar estrategicamente. Não quero transformar afeto em jogo de equilíbrio. Não quero fingir que não sinto para parecer forte.
Mas também não quero fazer do outro a minha âncora emocional.
Talvez amar sem se perder seja exatamente esse ponto de tensão:
Sentir profundamente. Mas continuar inteiro.
Demonstrar. Mas não implorar.
Se entregar. Mas não se dissolver.
Porque o amor saudável não exige que eu me vigie o tempo todo. Ele exige presença. Não performance.
E se um dia alguém achar que eu sou intenso demais, talvez essa pessoa não esteja errada.
Talvez eu só não seja feito para ser morno.
O que eu estou aprendendo (às vezes na marra) é que amar não pode significar me abandonar para garantir permanência.
Se for para alguém ficar, que fique com o meu inteiro. Não com a versão reduzida que eu criei por medo.
Eu ainda erro. Ainda penso demais. Ainda sinto o peito apertar às vezes.
Mas hoje eu sei:
Não é sobre amar menos.
É sobre não desaparecer dentro do amor.
Amar, sim.
Mas sem me perder de mim.